Do que me lembro desses dias, é do prazer do contacto das mãos com a areia. Desenhar letras era um modo de desenhar, simplesmente. E de tirar um prazer táctil do mundo, ao mesmo tempo.
As letras seguintes vieram com a escola primária, para onde eu fui com uma intensa alegria. Pelo menos, é o que agora recordo. A minha primeira professora chamava-se Zélia, era alta e elegante e tinha o cabelo preto e os olhos azuis. Era uma algarvia de Loulé, que tinha três filhos e era tão rigorosa como doce. Um equilíbrio que nos levou a todas (digo todas, porque, nesse tempo, a nossa escola era a das miúdas. E éramos 44 numa sala) no fio das linhas e nos ensinou a ler e a escrever. Nesses anos, escrevia-se a caneta de tinta permanente e apurava-se a caligrafia em cadernos de duas linhas. Eu tinha uma relação de amor-ódio com esses instrumentos. Por um lado, a caneta deixava um rasto de brilho atrás de si. O azul profundo da tinta convidava por vezes mais à pintura do que à cópia. E as duas linhas do caderno, conduzindo a mão, lembravam que a escola era um sítio para trabalhar, não para brincar. Mas, ainda assim, o prazer acabava por se misturar na obrigação.
No segundo ano, a Professora Zélia foi-se embora porque alguns pais, mais dados ao rigor físico do que aos encantos da aprendizagem, fizeram queixa dela e calhou-nos depois uma herdeira dos métodos da Inquisição, que claramente gostava de torturar criancinhas e distribuía, com grande ligeireza e frequência, chapadões e ponteiradas. A caneta de tinta permanente tornou-se, por esses tempos, um reflexo penoso dos meus medos. As mãos jorravam água, constantemente. E a mão direita parecia que tinha mesmo uma ligação directa à torneira. As minhas folhas de caderno evidenciavam bem isso, com ondulações do papel e manchas de tinta. A caligrafia, que nunca fora das mais elegantes, transformou-se num retrato expressionista do pânico em que eu (como todas nós) vivia. Sempre que podia escrever a esferográfica, aliviava um pouco.
A única coisa boa dessa professora, em termos de escrita, foi, no terceiro ano, ter lançado uma proibição de começar as redacções por "era uma vez". Passado o susto inicial, lá consegui encontrar fórmulas alternativas: "Certo dia", "Um dia", "Numa ocasião", "Antigamente", "Há muito tempo"... Se o gesto não foi encorajado à descontração, pelo menos esse repto teve alguma coisa de libertador.
Durante anos, os meus instrumentos da escrita mantiveram-se esses: canetas e esferográficas. Em relação às primeiras, recordo uma prenda do meu avô Manuel, quando acabei a primeira classe: uma caneta de tinta permanente, verde escura. Com um belo apáro. Depois, tive outras. Muitas, porque são lindas e escrevem maravilhosamente. Mas essa é minha decana. Embora a minha preferida, pelo seu magnífico apáro e pelo design sem máculas, seja a Parker 21. Há uns anos, o meu pai deu-me a sua. É a jóia da minha ínfima colecção.
De preferência com cores diferentes e sempre muito próximas do desenho, da aguada, do sombreado. Durante algum tempo, até desenhei mais do que escrevi. Por não ter dinheiro para oferecer uma prenda de aniversário a um amigo, resolvi fazer-lhe um retrato a carvão. Descobri nessa altura que não apenas era capaz de o fazer, como passei a olhar para esse amigo de outra maneira. Essa descoberta de um outro tipo de escrita foi muito importante para mim. Durante anos, fiz os retratos de quase todos os meus amigos. Parecia que só os via bem depois de a minha mão lhes ter tomado os traços. Descobri que o desenho era a forma mais fiel de compreensão. A que revelava não apenas a cara do outro, mas, sobretudo, o modo como eu me apercebia da sua personalidade.
Mas, aos 20 e poucos anos, deixei de desenhar. Os instrumentos passaram, por isso, a ser apenas usados para o outro alfabeto. Entretanto, tinha entrado em cena, na minha vida, a máquina de escrever. Como instrumento, era muito cinematográfico. Imaginava-me, projectando-me no futuro, sentada a uma velha mesa, em frente à máquina, a escrever romances. À minha esquerda, abrindo-se sobre o horizonte, uma janela mostrava-me o mar. Escusado será dizer que essa minha casa era edificada sobre uma duna. Naturalmente, na Meia Praia. Inspirada nas casas que, pouco antes, aí se tinham erguido para os pescadores, eu antecipava uma vida com atmosferas húmidas e frias, rodeada de mar e livros. E com o barulho das teclas, pontuado pela campainha do final da linha.
O futuro não foi nada disso. E ainda bem, porque o sossego que então havia na Meia Praia desapareceu engulido pela voragem dos construtores. Mas, à parte o cenário, o próprio instrumento da escrita se tornou embirrante. As noitadas a passar trabalhos para a Faculdade mostraram-me o quanto a máquina era cansativa e rudimentar. Ainda pensei comprar uma nova; eléctrica e com memória. Mas, entretanto, vieram os computadores.
O meu primeiro contacto com esses "bichos" foi no CIAL, onde então dava aulas. Um dos directores da escola decidiu introduzir essa novidade e providenciar aos professores uma formação para a sua utilização. Nesse tempo de écrãs negros no qual surgiam uns símbolos verdes, nesse tempo de disquetes gelatinosas, eu achei o computador uma máquina incompreensível. Ao fim do dia, cansados das aulas e a ter aulas de informática, o resultado não podia ser brilhante. Continuei a escrever à máquina.
Em 1989, quando comecei a escrever para "O Jornal", apresentaram-me, então, um Macintosh. Gostei do nome e já achei o "bicho" muito menos críptico. Mas o meu contacto com ele foi então escasso. E continuei com a máquina de escrever e com os cadernos e as canetas.
Só em 1992, quando fui para o Público, é que percebi, realmente, as benesses dos computadores. Continuamos, claro está, a falar de um universo Mac. E, por isso, pela simplicidade da sua utilização, eu aderi de imediato. Comprei o meu próprio computador (um Mac Classic, pequenino e simpático, que ainda liga e funciona!!!) e arrumei definitivamente a máquina de escrever. Até porque, como maravilhosamente descreveu o José Cardoso Pires, o computador é uma máquina de apagar. Ora há lá coisa melhor?
O meu segundo portátil |
Agora, 40 anos depois das primeiras letras na escola, a minha caligrafia está decididamente pelas ruas da amargura. Continua a ter a surpresa de, por vezes, as notas tomadas nos cadernos me sugerirem outras coisas, na modulação da palavra desenhada em liberdade. Tem uma graça relativa, é claro. Às vezes, é incompreensível. E, quando estou a trabalhar em ensaio, tenho um cuidado extra, nas citações, para não se tornarem ilegíveis depois. Ou criativas.
Por tudo isso, embora nunca saia de casa sem uma caneta e um caderno, 99% das vezes que escrevo faço-o directamente neste e com este outro instrumento. Depois imprimo, é claro, e corrijo no papel. Mas a escrita, a vários dedos, é mais rápida e acompanha mais fielmente o ritmo do pensamento.
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O meu terceiro (e actual) portátil |
O calo que se começou a formar no meu dedo médio da mão direita, há 40 anos, continua lá. Não desaparecerá, penso. Faz parte de mim. E, mesmo sem criar calos, o computador passou a funcionar, para mim, quase como as canetas de tinta permanente. O prazer que me dá o meu portátil, rápido e ergonómico, companheiro de aventuras e de canseiras, é parecido com o que me dá, ainda hoje, a Parker 21. É verdade que o teclado não se danifica se alguém, que não eu, o usar. (Criei fama de comichosa por não emprestar as minhas canetas. Os apáros não resistem a vários utilizadores). Mas é o meu instrumento de escrita. É meu. Só isso.
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